quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Sofrimento de Policarpo Quaresma, o Carnaval do Jovem Werther e o Tremendão de Roterdã



O Sofrimento de Policarpo Quaresma, o Carnaval do Jovem Werther e o Tremendão de Roterdã
por César Alves

Depois do 7 a 1, na derrota vergonhosa sofrida pela seleção brasileira frente a poderosa Alemanha, futebol talvez não seja assunto dos mais agradáveis aos Policarpos Quaresmas ainda pesarosos com o Triste Fim do Sonho do Hexa.
Sei que os que ainda ruminam Sofrimentos, enquanto celebra o Jovem Werther, não querem nem saber, mas sugiro a eles que se alegrem! Afinal, espantamos o fantasma de 1950, criando um Fred (piada pronta!) Krueger de 2014. O espírito do saudoso goleiro Barbosa pode descansar tranqüilo e justiçado.
Acho que é a hora de enxergar que a verdadeira Seleção não fosse aquela de amarelo, mas outra. Aquela que entrou em campo um ano antes, trajada de preto, usando touca ninja, uma Pátria de Coturnos e esquema tático agressivo, na base do ataque, fintando a tropa de choque com dribles de coquetel molotov, cujo hino dizia: “Não Vai Ter Copa!”
Entendo que é feio virar a casaca, mas, assim como o Zagalo numa Copa passada, você vai ter que engolir: Era melhor ter construído hospitais, creches e escolas. Por mais que tenhamos aproveitado da festa, ficamos com a limpeza e as despesas, que, tendo em vista o valor da entrada, melhor nem pensar no valor das prestações, quando recebermos a fatura.
Pagamos a conta e levamos 7 de troco. Uma gorjeta pelo bom serviço, cortesia dos simpáticos alemães.
Como dizia o Tremendão de Roterdã: “A maior das insanidades é querer ser sensato num mundo de insanos”, podem dizer que eu estou falando besteira, sendo negativista e exagerando. Talvez seja.
Mas, como ele (conterrâneo da equipe que pode nos contar a última piada ingrata da Copa no sábado, aliás) dizia também: “Rir de tudo é próprio do parvos, mas rir de nada é próprio dos Estúpidos”. Então, seguirei rindo e sugiro aos amigos o mesmo.

Sigamos a Vida Felina! Mais vale um Gato, que tem 7 vidas, que 200 milhões de Vira-latas, chorando eternamente 7 Gols.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Artigo - Jorge Schwartz



Entre as Vanguardas do Novo Mundo e transformistas do submundo

Jorge Schwartz aborda as vanguardas Latino-Americanas e o submundo paulistano no trabalho de sua mãe, a fotógrafa Madalena Schwartz.
Por César Alves

Diretor do Museu Lasar Segall desde 2008 e também professor titular de literatura hispano-americana da USP, Jorge Schwartz é um incansável estudioso, pesquisador e crítico de arte. Com principal foco nas produções latino-americanas, ele é autor de incontáveis livros e artigos sobre artes visuais e literatura, além de possuir um currículo de fazer inveja como curador de diversas e importantes exposições.
Nascido em 1944, sua colaboração para com o segmento que escolheu como objeto de estudo e atividade profissional possui diversidade, constância e quantidade de formatos o suficiente para imaginar que o autor pouco tenha descansado nas últimas décadas, tornando quase impossível encontrar outra palavra que descreva sua relação com o universo das artes além de paixão. São frutos dessa paixão dois títulos que trazem sua assinatura, que recentemente chegaram às nossas livrarias. 
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O primeiro deles, lançamento fresquinho da Companhia das Letras, chama-se Fervor das Vanguardas. Se o título não diz muito ou até pode fazer com que alguns leitores torçam o nariz, devido ao número de picaretagens pretensiosas associadas à palavra “vanguarda” que hoje aparecem em nossas livrarias e salas de exposições, o subtítulo talvez deixe mais claro do que se trata e explique sua importância: Arte e Literatura na América Latina.
O tema não é novidade para o autor dos importantes Vanguardas Latino-Americanas e Vanguardas Argentinas – o segundo escrito em parceria com May Lorenzo Alcala –, ambos lançados pela Editora Iluminuras. Fervor das Vanguardas chega para ser associado a estes títulos e enriquecer ainda mais a bibliografia sobre o assunto em nossas prateleiras. A obra reúne uma série de ensaios e artigos de Schwartz produzidos ao longo dos últimos anos.
Autor de estudos aprofundados sobre as obras de Oswald de Andrade e Oliverio Girondo, dois dos nomes mais emblemáticos das vanguardas do Brasil e Argentina, ambos aparecem aqui em novos textos que abordam aspectos específicos de seus trabalhos e sua importância. É justamente Oswald um dos protagonistas do artigo que abre o livro, o ótimo Tarcila e Oswald na sábia preguiça solar, que traça um estudo sobre a colaboração conjugal e artística do casal emblemático do Modernismo Brasileiro, batizado por Mario de Andrade de “Tarciwald”. Mario, que assim como Oswald figura em vários dos textos que compõe a obra, também teria sido um dos primeiros a estabelecer uma ponte entre os modernistas brasileiros e argentinos, divulgando por aqui os nomes de Jorge Luis Borges e Oliverio Girondo, poeta que, antes dos beatniks e da contracultura, empreendeu uma jornada pelo Oriente no início dos anos 1920, como ficamos sabendo em Ver/ler: O júbilo do olhar em Oliverio Girondo.
Merece destaque o artigo Surrealismo no Brasil?: Décadas de 1920 e 1930. O texto parte da estadia do surrealista francês Benjamin Péret no Rio de Janeiro e em São Paulo entre os anos de 1929 e 1931, quando se casou com a cantora brasileira Elsie Houston,  vinculada a Heitor Villa-Lobos, e estabeleceu relações e colaborou com expoentes de nosso modernismo até ser expulso do país devido a sua ação política com o trotskismo – Perét chegou a ser preso em sua segunda visita em 1956, quando veio assistir ao casamento de seu filho –, para falar do flerte de nossos artistas com o Movimento liderado por André Breton. Schwartz assinala o embarque na aventura surrealista de nomes como Ismael Nery, Cícero Dias, Vicente Rego Monteiro, Tarcila do Amaral, Flávio de Carvalho (“um antropófago avant la lettre”) e Jorge de Lima, entre outros, mas responde à questão que da título ao artigo concluindo que não existe um surrealismo brasileiro, mas sim obras de artistas nacionais de inspiração surrealista.

Também discute a reivindicação de Vicente Rego Monteiro de ter sido ele o precursor da Antropofagia modernista e a obra do lituano radicado no Brasil, Lasar Segall – tema de três capítulos do livro –, como ponto de confluência de um itinerário afro-latino-americano nos anos 1920.
Verdadeiro passeio em busca de pontos em comum entre as produções artísticas de vanguarda do Brasil, Argentina e Uruguai, o livro traz 128 páginas só com reproduções das obras citadas. Além dos nomes acima, a obra também vislumbra os trabalhos do uruguaio Joaquím Torres García e dos argentinos Xul Solar e Horácio Coppola.

Filho da fotógrafa Madalena Schwartz (1921-1923), Jorge também assina a curadoria da exposição Crisálidas, reunindo trabalhos de sua mãe. Moradora do Edifício Copan na década de 1970, Madalena focou seu olhar sob os personagens do Centro de São Paulo. São da época os cliques de transformistas, travestis e performers que compõem a mostra que fica no Museu da diversidade até setembro. A exposição acabou gerando também um livro que reúne 100 fotografias, com destaque para os ensaios com Ney Matogrosso na fase-Secos & Molhados e os Dzi Croquettes, todas extraídas dos mais de 16 mil negativos que fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles que também edita a obra.
De origem húngara, Madalena Schwartz descobriu a fotografia por acaso, depois de o filho Julio ganhar um prêmio do programa de Bibi Ferreira na extinta Tv Excersior. Com o dinheiro, ele comprou uma câmera, mas foi sua mãe quem se interessou pelo aparelho. Da simples necessidade de registrar seu olhar afetivo sobre a cidade, a fotografia acabou por se tornar profissão. Em sua carreira, Madalena Schwartz passou por publicações como as revistas Claudia, Planeta, Status, Lui e Vogue.

Serviço:

Livros: Fervor das Vanguardas, Jorge Schwartz, Companhia das Letras, 376 páginas. Crisálidas, Madalena Schwartz, Editora IMS, 136 páginas.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Boca do Inferno - Otto Lara Resende



Os Infantes Terríveis de Otto Lara Resende

Contundentes e ainda provocadores, os contos de Boca do Inferno estão de volta às livrarias, em nova edição.

por César Alves

“Em São João Del Rei, onde nasci e me criei, cemitério se debruça na rua, está junto das igrejas. Os mortos ficam espiando os vivos, com o olho irônico do Undiscovered Country”, disse, certa vez, Otto Lara Resende a um entrevistador. Embora pulsando vida e contemporaneidade, talvez seja este olhar, carregado de ironia e provocação inteligente, que dá o tom nos sete contos – todos protagonizados por crianças e pré-adolescentes – que compõem Boca do Inferno, obra seminal do autor mineiro, que acaba de ganhar nova edição, através da editora Companhia das Letras.
Lançado originalmente em 1957, Boca do Inferno teve efeito explosivo no imaginário intelectual brasileiro de sua época. Alvo de debates acalorados no meio literário, o livro foi praticamente boicotado pelas editorias de cultura e literatura da época, que, arbitrariamente, decidiram ignorar ou divulgá-lo em algumas curtas e poucas críticas – negativas, em sua esmagadora maioria. O impacto do lançamento e a maneira inesperada como foi recebido chegou a atingir emocionalmente o já respeitado escritor e jornalista, ao ponto de ele mesmo condená-lo ao limbo, recusando-se veementemente a reeditar a obra até sua morte, em 1992.
Com a autorização da família, o livro só voltou às livrarias em 1998, desta vez, ganhando o merecido reconhecimento que lhe foi negado em sua primeira vinda. Ainda assim, embora celebrado por sua ousadia e por manter-se contemporâneo tantas décadas depois, os elogios vinham com certo constrangimento diante das tramas assustadoras e das ações dos personagens imaginados por Otto Lara Resende. 

O que justificaria tal assombro? Seriam as historias de Boca do Inferno, ainda capazes de impressionar os leitores de hoje?
A leitura desta nova edição pode oferecer as respostas e, certamente, esclarecer o que causou tanta discussão, quando o livro veio à luz pela primeira vez, e o que ainda mantém a obra contundente.
Segundo livro na carreira do autor mineiro, Boca do Inferno vinha na sequência de O Lado Humano (1952). Embora recebido de forma modesta, os contos de seu livro de estréia deram ao autor lugar de destaque entre os novos escritores da época. Já reconhecido por seu brilhantismo como jornalista, cronista e excelente frasista – um dos melhores que este país produziu, diga-se de passagem –, em Boca do Inferno, Otto Lara Resende transferia o ambiente urbano das tramas de seu primeiro livro para as cidades do interior e substituía seus protagonistas adultos por crianças.
É justamente na idade de seus personagens e suas ações que se encontra o estopim do choque causado pela obra na sociedade conservadora do período. Para o moralismo vigente no Brasil dos anos cinqüenta eram inconcebíveis os atos dos envenenadores, psicopatas homicidas, tarados incestuosos e suicidas mirins de Resende. Para seus detratores, a obra representava uma ofensa explicita a tudo o que definia a moral e os bons costumes.
Tendo em vista o conservadorismo vigente nas classes dominantes da época – e talvez ainda hoje, quando novas Marchas da Família são planejadas para pedir a volta da ordem sob tutela de uma ditadura militar –, em sua ousadia, o autor sabia estar se arriscando e que pisava em terreno minado. Não é preciso avançar muito na leitura para sacar seus principais alvos: a Igreja (principalmente, no conto que abre e dá título ao livro), a hipocrisia moral da sociedade e a família.
A maioria dos críticos insistia na mesma tecla: a de que os personagens eram inverossímeis e que suas atitudes eram inconcebíveis para crianças. Os Infantes Terríveis de Lara Resende, no entanto, nem de longe, são inverossímeis, assim como não o são suas monstruosidades. Mas não é preciso uma leitura muito atenta para perceber que, para Otto Lara Resende, nos atos dos adultos é que estão engendrados os monstros da infância. Assim é hoje, como também o era naquela época. Como diz uma velha canção dos anos oitenta, a Barbárie começa em casa.
Isto fica claro nos castigos infligidos pelo padre contra seu afilhado, Trindade, em Boca do Inferno; na mãe e na avó que reprimem e duvidam de Silvia, quando a menina revela o assédio e abuso sofridos, inclusive por um parente, em O Segredo; e na crueldade do tio para com o sobrinho órfão, Chico, em O Moinho.
Principal objeto de repúdio dos críticos, o conto Três Pares de Patins, começa numa tarde de diversão no adro da igreja, transformado em pista improvisada, e culmina com a invasão do cemitério onde, sobre uma sepultura, irmão faz sexo com a própria irmã e depois a oferece ao amigo.
Aliás, a maestria com que Otto Lara Resende conduz suas narrativas, muitas vezes, passando da delicadeza de uma tarde ensolarada numa cidadezinha interiorana para o mais sombrio ato de violência, é um de seus principais atrativos. Um dos melhores e mais surpreendentes contos de Boca do Inferno é exemplo disso.
Em O Porão, a história do pequeno torturador de animais – com direito a menção ao clássico de Edgar Allan Poe, O Gato Preto – nos é apresentada durante uma manhã primaveril, culmina num assustador ato de violência e fecha com a cena familiar da mãe que serve o chá da tarde ao filho.
Conforme sugere Augusto Massi, no ótimo posfácio escrito exclusivamente para esta edição, em Otto Lara Resende, o sol de uma bela manhã interiorana se esbarra com o reflexo solar que se faz cúmplice do assassinato praticado pelo personagem de Albert Camus, durante a situação limite de O Estrangeiro.
Ainda impactante e surpreendente, mesmo para nossos dias, Boca do Inferno merece figurar entre as mais importantes obras de nossa narrativa curta. Quase seis décadas depois de sua primeira edição, o livro ainda transpira frescor, provocação e choque e sua volta às nossas livrarias é mais do que bem vinda.

Serviço: Livro: Boca do Inferno – autor: Otto Lara Resende – editora: Companhia das Letras – 188 páginas.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

A Flying "V" de Dave Davies





A Flying V de Dave Davies
por César Alves


Os Kinks sempre serão uma de minhas bandas prediletas e sempre rendem assunto para o colega aqui. Mas o motivo deste texto é uma guitarra. A Flying “V”usada por Dave, o caçula dos Davies.
A última vez que ela apareceu em um leilão, foi arrematada por meio milhão de dólares. Instrumentos que pertenceram a artistas de renome costumam valer muito, mas o verdadeiro motivo do valor alcançado pelo item é que, além de ter sido tocada pelo irmão caçula de Ray Davies, é também o protótipo, feito em 1959, do que seria a clássica Gibson Flying V, cujo projeto tinha sido abandonado devido ao formato pouco atraente do instrumento.
A história de como a guitarra foi parar nas mãos do mais jovem e encrenqueiro dos “safados” é ainda mais interessante. Conta a lenda, que os organizadores da primeira turnê americana deles perderam o instrumento usado por Davies e, desesperados para substituí-lo, deram dinheiro ao guitarrista e o mandaram a loja mais próxima escolher uma nova guitarra.
Apesar de o The Kinks já estar galgando o caminho do sucesso, o dinheiro do caçula Dave era controlado pelo irmão mais velho, Ray, e o empresário do grupo, logo o garoto viu uma boa oportunidade de comprar um instrumento barato e embolsar o troco para outras “coisinhas”. Na loja, insistiu que não gostara de nenhum dos instrumentos disponíveis e perguntou por aquela guitarra estranha guardando poeira no fundo da loja.
Não levando a sério, o vendedor teria dito: “Isso ai? É uma guitarra velha que ninguém quer, pois é muito feia. A única garantia que posso lhe dar é que você terá um modelo exclusivo, pois não foram fabricadas outras.” Davies imediatamente fechou negócio por alguns dólares, o valor exato, o guitarrista diz já não se lembrar e voltou feliz para o hotel para agüentar a chacota dos outros integrantes da banda. O modelo começou a ser fabricado em meados dos anos 60 e ganhou popularidade na década seguinte, empunhado por artistas de glam rock, funk e hard rock.
Não dá pra dizer até que ponto Dave Davies aparecendo em shows e programas de TV com seu protótipo, colaborou para o futuro da Flying V, mas a história é muito boa e entrou para o caderno das lendas do universo pop.


quarta-feira, 12 de março de 2014

Cinema da Boca do Lixo - Trilogia do Terror

 
Trilogia do Terror – Candeias, Mojica e Person
por César Alves
 Lançado em 1968 A Trilogia do Terror (não confundir com o nome que recebeu por aqui o filme Body Bags do John Carpenter) é uma produção cinematográfica de Antonio Polo Galante da era de ouro da Boca do Lixo de São Paulo.
A idéia do filme partiu do programa semanal de José Mojica Marins Além, muito além do além – qualquer semelhança com o clássico enlatado americano Além da imaginação (The Twilight Zone)  não é mera coincidência –, que fazia sucesso na época, exibido pela TV Bandeirantes e é composto de três histórias dirigidas por três dos diretores mais criativos do cinema de São Paulo. Embora todas as tramas tenham o sobrenatural e o terror psicológico como pano de fundo, cada uma delas traz características próprias de seus realizadores.
Sob a direção de Ozuldo Candeias, O acordo conta o drama de uma mãe desesperada por “curar” e desencalhar a filha, acabando por fazer um acordo com o “das profundas” para resolver seu problema. Em troca, o tinhoso pede o sacrifício de “uma donzela”. Com narrativa fragmentada, o episódio tem várias das características que marcaram a trajetória de Candeias, como a predileção por climas rurais, muitas vezes remetendo ao western americano, cultos populares e a boa velha sensualidade rústica, que não deve ser confundida com mera sacanagem (ehehehe).
Prestem atenção na trilha sonora incidental do Rogério Duprat que mescla experimentalismos como a cacofonia, guitarras elétricas com fuzz, microfonia e violas caipiras, remetendo aos arranjos que, na mesma época, o maestro produzia para aqueles maravilhosos álbuns tropicalistas. Alguém precisava tentar recuperar isto e lançar em disco.
Já Luis Sérgio Person buscou inspiração no conto de terror clássico de nosso folclore, A procissão dos mortos. A história é conhecida e possui várias versões (vide Câmara Cascudo). Na mais famosa reza sobre uma fofoqueira que gostava de bisbilhotar os outros pela janela e certa noite ouve um barulho e abre a janela para ver o que é. Dá de cara com uma procissão silenciosa. Um dos que seguem o grupo se aproxima e lhe dá uma vela para que a guarde, pois virá buscar na noite seguinte. Já de manhã, a velha descobre que a tal vela é na verdade um osso humano! Minha avó costumava tirar meu sono com essa história, mas Flávio de Carvalho provou, com sua “Experiência No. 2”, que a procissão dos vivos pode ser mais perigosa, né? Apesar de aproveitar o título do conto, Person subverte a história substituindo os beatos do além túmulo por guerrilheiros fantasmas, numa clara referência ao contexto político do momento.
O mestre do terror brasileiro, José Mojica Marins, explora o lado psicológico do horror. Seu episódio, Pesadelo macabro, fala de Cláudio, rapaz atormentado pelo medo de ser enterrado vivo. Devo confessar que também guardo este medo desde que li o conto do Edgar Allan Poe, então, se eu me for antes de vocês, façam-me o favor de providenciar “furos de respiro” em meu caixão, como fez o caçula dos Brunden, Vardaman, para sua mãe.
Brincadeiras pretensiosas (só para citar Faulkner) à parte, aqui estão lá todas as cobras, lagartos, aranhas, ratos e os fantásticos rituais sadomasoquistas que nos fazem amar esse cara.
Foi lançado ha pouco tempo em DVD, mas pode ser visto completo, dividido em partes de dez minutos, pelo Youtube.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Laranja Mecânica - A Distopia Horrorshow de Burgess

 
 
A Distopia Horrorshow de Burgess
 
Famosa pela adaptação cinematográfica de Stanley Kubrick, a obra de Anthony Burgess gerou polêmica, foi envolta em mitos e ainda hoje é objeto de culto.
por César Alves
 
Ó, meus irmãos! Goolyava eu como Office-boy na época. Vasculhava Oddy-knocky as estantes de uma bibblio do centro de São Paulo, quando coloquei meus glazzes em um exemplar surrado da tradução de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Eu era apenas um malchik , um tanto quanto nadmenny, como é próprio da idade, e me interessava por musica e literatura. Ó, irmãos! Eu devia ter uns 15 anos de idade, mas sabia que era a raskazz que inspirara aquele sinny de Stanley Kubricky, que eu nunca havia viddiado e, mesmo assim, era meu sinny preferido. Eram dias de rebeldia e dar um crast até que não seria difícil. Mas acabei kupeteando o livro e não me arrependi de deixar um pouco de meu tão suado deng com o vendedor da loja. Assim fui loveted e me tornei um plenny de Burgess e sua narrativa, um tanto quanto spoogy, carregada de strack, mas ainda hoje um dos momentos mais horrorshow de minha aventura pelo universo da literatura.
Para alguns leitores, o parágrafo que abre o texto pode parecer estranho e até incompreensível. Não para os que assistiram à clássica adaptação cinematográfica feita por Stanley Kubrick em 1971 e muito menos para os que leram Laranja Mecânica como foi concebida e ainda guardam na memória as gírias utilizadas pelos protagonistas do mais famoso romance de Anthony Burgess. Reconhecido como um dos marcos da literatura popular do século vinte, o livro está completando cinco décadas desde que, pela primeira vez, chegou às livrarias britânicas, atingindo os súditos da rainha como uma bomba. O impacto da explosão ecoou mundo afora e ainda hoje reverbera.
A data tem sido comemorada com homenagens em todo o globo, como a exposição programada pela Universidade de Manchester, em parceria com a Fundação Internacional Anthony Burgess e o Arquivo de Stanley Kubrick, que faz um apanhado do legado e o impacto da obra através dos anos. No Brasil o livro é publicado desde os anos 1970, não sendo difícil conseguir um exemplar das antigas edições em sebos. A mais recente tradução, de Fábio Fernandes, foi publicada pela Editora Aleph de São Paulo, a mesma responsável pela melhor surpresa envolvendo o cinquentenário da obra por aqui. 
Com lançamento programado para a última semana de novembro, exclusivamente para o mercado brasileiro, Laranja Mecânica ganha versão luxuosa, com capa dura, ilustrações inéditas de artistas consagrados, reprodução do manuscrito original, além de uma entrevista e textos inéditos do próprio Anthony Burgess sobre a obra. Laranja Mecânica – 50 anos tem capa e projeto gráfico de Pedro Inoue, designer gráfico brasileiro de renome internacional que trabalhou com nomes como Demien Hirst, Ryuchi Sakamoto e David Bowie – para quem criou as capas dos álbuns Heathen (2002) e Reality (2003) –, entre outros. Os capítulos foram ilustrados por artistas de renome internacional, como o brasileiro Angeli, que dispensa comentários; o inglês David McKean, idolatrado por seus trabalhos com o personagem Sandman de Neil Gaiman e pelo antológico e sombrio Batman Asilo Arkham, considerado um marco dos quadrinhos modernos; e o premiado animador, ilustrador e artista plástico argentino, Oscar Grillo. Convidados a recriar visualmente sua impressão pessoal do imaginário de Anthony Burgess, o resultado é aqui reproduzido pela primeira vez, o que torna a nova edição histórica. Desde já item de colecionador, o lançamento classifica-se como uma das mais completas edições do livro até o momento, não havendo nada parecido nas diversas traduções ao redor do mundo.

Distopia na década das utopias
Escrito em apenas três semanas no início dos anos sessenta, a inspiração teria vindo de artigos de jornais sobre brigas entre Rockers e Mods – dois dos primeiros grupos de jovens do advento estético e comportamental, detectado e muito estudado nas décadas seguintes, das tribos urbanas – e de uma manchete policial envolvendo estupro e assassinato. Um dos muitos mitos sobre a concepção de Laranja Mecânica conta que a obra é fruto de uma falha médica. Apesar de já respeitado no meio intelectual e celebrado como autor de livros e ensaios sobre literatura, na época Burgess passava por situação financeira difícil. Para piorar, o escritor teria sido diagnosticado como portador de uma doença fatal. Os médicos calculavam que lhe restava pouco mais de um ano de vida. Desenganado e preocupado com o futuro de sua esposa e filhos, o escritor se isolou em uma casa do interior decidido a escrever quinze livros no prazo de seis meses. Com o retorno dos direitos autorais, esperava garantir a subsistência de sua família depois de sua morte. Como era de se esperar, não alcançou sua meta. Mas conta-se que, durante o período, teria escrito seis novos títulos. Um deles seria justamente A Laranja Mecânica.
Laranja Mecânica classifica-se como uma distopia futurista, cujo pano de fundo é uma Londres do Século XXI, decadente e assolada por gangs de jovens que se divertem praticando os mais cruéis atos de violência. Narrado em primeira pessoa por Alex, o romance foi escrito quase como uma confissão, na qual o personagem convida o leitor a ouvir sua historia e compartilhar de sua tragédia pessoal. O livro é dividido em três partes, cada uma com sete capítulos e, na nova edição, ilustrada por um dos artistas. Com desenhos de Dave McKean, na primeira parte o delinquente nos apresenta a seu mundo, vangloriando-se dos tempos em que era o líder de seu bando e, junto com os integrantes deste, praticava uma concepção muito particular de liberdade, baseada em drogas, sexo e os mais extremos atos de violência. O calvário de Alex é descrito no trecho intermediário da narrativa, aqui acompanhada pelo traço inconfundível de Angeli. Preso e condenado por suas atrocidades, ele se oferece como cobaia para um programa que visa recuperar delinquentes juvenis através de lavagem cerebral, o Tratamento Ludovic. O que a princípio parece uma estratégia para escapar da prisão, acaba por se tornar uma tortura. A impressionante descrição do procedimento – bem como a forma como Kubrick a representou nas telas – tornou-se inesquecível. A tragédia da readaptação à vida cotidiana e os efeitos do tratamento – que destrói seu livre arbítrio, tirando inclusive seu amor pela Nona Sinfonia de Beethoven, único traço sensível ou humano de sua personalidade – completam a terceira parte que conclui a narrativa com um final surpreendente. A concepção visual ficou a cargo do argentino Oscar Grillo.
Burgess gosta de sutilezas textuais e simbólicas, o que dá a seu texto carga extra ao conteúdo dramático. Nas entrelinhas, deixa pistas de suas verdadeiras intenções, quase como um
prêmio para o leitor mais atento. Por exemplo; o nome do personagem, Alex, faz uso da palavra “lei” em latim (lex), sugerindo a-lex (algo como fora da lei, sem lei ou além da lei). Além de ser uma clara referência ao jovem e violento conquistador macedônio Alexandre, o Grande. O fato de os personagens beberem leite, símbolo de pureza, misturado com aditivos químicos, também não é mero capricho, além de a soma das três partes, com sete capítulos cada, resultar em 21. Assim, o livro termina justamente no capítulo de número correspondente à idade que marca o fim da tolerância legal aos erros cometidos pelos mais jovens e, na maioria das culturas, a entrada definitiva na maioridade, quando o individuo passa a responder perante a lei por seus atos.
Estudioso e amante da obra de James Joyce – escreveu um respeitado trabalho sobre o irlandês, publicado no Brasil como Homem Comum Enfim (Cia das Letras) –, foi do autor de Ulisses que Anthony Burgess tirou a inspiração para o vocabulário nadsat, que aparece na fala dos personagens como gírias. A “língua”, mais compreensível através do glossário publicado no livro, foi desenvolvida pelo autor misturando palavras do inglês, do russo e, principalmente, expressões idiomáticas dos cockney, ingleses da classe operária, que nasceram ou vivem em determinada área de Londres, cujo sotaque possui sonoridade e vocabulário quase incompreensíveis para não familiarizados, além de características e expressões idiomáticas muito próprias. O título, aliás, teria vindo de uma expressão cockney que certa vez o autor ouvira em um pub: as queer as a clockwork Orange – algo como: desorientado feito uma laranja mecânica.
Publicado em 1962, desde então a obra vem fascinando gerações de leitores. Quase dez anos depois, o texto chegou às telas do cinema, pelas mãos de Stanley Kubrick, resultando na película que figura hoje na maioria das listas de “Cem Maiores Filmes da História”. O sucesso do filme elevou o livro à categoria de Best seller, alçando o nome de Anthony Burgess ao de escritor pop. Além do cinema, A Laranja Mecânica ganhou adaptações teatrais e influenciou de astros de rock à moda, da arte dos museus à praticada nas ruas. Seus personagens se tornaram parte da iconografia do século vinte. A estética visual dada por Kubrick à gang de Alex, na interpretação inesquecível de Malcolm McDowell, chapéu coco, macacões brancos, cílios postiços e suspensórios, foi utilizada em inúmeros videoclipes, ganhou citação em episódios d´Os Simpsons e é comum em estampas de camisetas e tatuagens. Ainda hoje a obra é tema de artigos e teses, não só de literatura como também de estudos que vão da Filosofia ao Direito Penal.
 
“Não é um hino à violência, mas à liberdade”.
Comprovando o gosto que a Historia nutre pela ironia, a década que abriu com o lançamento de Laranja Mecânica tem como um dos atos que a encerraram Charles Manson e seus seguidores trazendo a Ultraviolence dos personagens do livro para a realidade, no assustador ataque à mansão do casal Roman Polanski e Sharon Tate, em 1969. Mas, quando foi escrito, eventos como o Massacre de Columbine sequer poderiam ser imaginados. Muito menos, um garoto fuzilando pessoas em um cinema, acreditando ser um supervilão de quadrinhos. Nem por isso – ou talvez por isso –, a obra deixou de ser considerada uma apologia à violência juvenil. Principalmente depois do filme de Stanley Kubrick alavancar sua popularidade, muitas vezes Anthony Burgess foi obrigado a esclarecer que o livro é um libelo em favor do livre
arbítrio e não uma celebração da delinquência juvenil. “Não é um hino à violência, mas à liberdade. É melhor ser malvado por escolha do que bom por lavagem cerebral”, teria dito. Ainda assim, nos Estados Unidos, até meados da década de 1980 a obra foi publicada com a supressão do último capitulo.
Triste, porém verdadeiro, é que, quando lemos notícias sobre jovens bem nascidos que incendeiam índios e sem tetos por pura diversão, um garoto que descarrega suas frustrações na forma de artilharia pesada contra crianças em uma escola e detalhes do caso de Suzanne Von Richthofen e irmãos Cravinhos, a violência de Alex e seus amigos, embora ainda impactante, talvez não cause tanto espanto – ou ganha proporções premonitórias, pensaria o mais alarmista dos leitores.  A tragédia histórica, no entanto, oferece oportunidade para uma releitura da obra de Anthony Burgess, sem a carga polêmica relacionada ao seu conteúdo violento. A verdade é que, cinquenta anos depois, Laranja Mecânica ainda provoca e chama a atenção por sua ousadia e criatividade.
 
 
A Ultravilence pela ótica de Stanley Kubrick volta em Blue-Ray
O clássico dirigido por Stanley Kubrick, que levou o imaginário de Anthony Burgess às salas de cinema, comemorou 40 anos em 2011. Para marcar a data foi lançada no mercado norte-americano uma caixa especial comemorativa do filme. Contendo dois discos, A Clockwork Orange 40th Anniversary Edition traz material inédito sobre a produção e uma série de extras. Indispensável para os fãs, além do filme, a caixa traz um making off, dois documentários; Turning Like a Clockwork  e Still Tickin´ The Returno of A Clockwork Orange, além de um longo depoimento de Malcolm McDowell que, de forma brilhante, encarnou o perturbado anti-herói criado por Burgess. O ator ficou marcado pelo papel, sendo quase impossível separá-lo do assustador e ao mesmo tempo fascinante Alex DeSage de A Laranja Mecânica.
 
Curiosidades: 
O underground norte-americano já havia sido contaminado pela ultraviolence de Burgess desde os anos sessenta.  Antes de Stanley Kubrick, o artista pop Andy Warhol já teria utilizado Laranja Mecânica como base para o roteiro de um de seus filmes experimentais. Vinyl foi dirigido por ele em 1965. E, ainda no submundo de Nova Iorque, Clockwork Orange foi o nome escolhido por uma banda de lá que lançou um punhado de singles entre 1966 e 67, antes de desaparecer. Suas canções são cultuadas hoje em dia em coletâneas de one-hit-wonders (artistas musicais de um só sucesso) dos anos sessenta, como a série Nuggets, que fazem a cabeça dos fãs de bandas obscuras da época.
O rock, aliás, tem uma relação antiga, tanto com o livro, quanto com o filme. David Bowie coloca o livro de Burgess entre suas leituras prediletas, citando e se deixando influenciar pela obra em vários momentos de sua carreira. Usar a palavra droogie , amigo em nadsat, na letra de Suffagette City, por exemplo, é uma de suas homenagens.
Ainda no rock, a mais internacional das bandas brasileiras, Sepultura, se inspirou em Laranja Mecânica para compor sua Ópera Metal, A-Lex, último álbum da banda lançado em 2008. E, já que estamos no Brasil, o país passou perto de ter um laço ainda mais estreito com a obra,
desta vez em sua versão cinematográfica. Exilados na Inglaterra no fim dos anos sessenta, Antonio Bivar (escritor, dramaturgo e jornalista) e Zé Vicente (dramaturgo, autor de Hoje é Dia de Rock) curtiam os momentos finais da Swinging London. Trajando roupas extravagantes e em estado de euforia típico de quem prefere outros remédios àqueles da mamãe, como diz a canção do Jefferson Airplane, foram convidados – com contrato e tudo, dizem – a fazer parte do elenco do filme de Stanley Kubrick, ainda na fase embrionária. Ambos acabaram deixando Londres pouco depois a trabalho, só para mais tarde descobrirem que foram aprovados para compor o elenco e perderam a chance, já que não foram encontrados. Nada horrorshow isso.

Pequeno glossário Nadsat
(para melhor compreender o primeiro parágrafo)
 
Bibblio: biblioteca, livraria
Crast: roubar
Deng: dinheiro
Glazz: olho
Gooly: Trabalhar
Kupet: comprar
Loveted: capturado
Malchick: garoto
Nadmenny: arrogante
Oddy-Knocky: Solitário
Plenny: prisioneiro
Raskazz: historia
Sinny: filme, cinema
Spoogy: aterrorizar, assustar
Strack: horror
Viddy: ver, assistir

Observação: O texto foi escrito às vésperas do lançamento da edição comemorativo de 50 anos da Editora Aleph, mas, por um daqueles acidentes inexplicáveis de fechamento, acabou caindo na última hora e só agora é publicado.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O Soldado Dave Brubeck e a Grande Lição de um Pai



O Soldado Dave Brubeck e a Grande Lição de um Pai

por César Alves

Antes de se tornar legenda no capítulo piano da história do Jazz, Dave Brubeck alistou-se como voluntário na expectativa de ir para o campo de batalha e fazer a diferença durante a 2ª. Guerra. O ano era 1942 e, apesar de não da maneira como esperava, ele fez. Amante das teclas desde criança, filho de uma pianista de formação clássica, responsável por suas primeiras aulas no instrumento e por despertar seu interesse pela música, muito novo Dave dava sinais de uma carreira promissora.

A descoberta de sua paixão e veículo através da qual expressaria seu talento chegou pelo rádio. Aparelho revolucionário e peça das mais importantes para um século que chegara para escancarar as portas do futuro, o rádio era a maravilha moderna capaz de captar as ondas sonoras que traziam ao jovem Brubeck as batidas fortes de uma música nova e selvagem. Embora desse a impressão de ter sido enviado como presente por civilizações mais avançadas de planetas muito distantes, o ritmo que o conquistara tinha suas origens nas comunidades negras de New Orleans e de lá se espalhado pelo país, assumindo o Harlem como residência oficial. Se o século vinte seria o século do futuro, o jazz era a trilha sonora dos homens do amanhã. Sua popularidade havia rompido as barreiras raciais que poucos anos antes pareciam intransponíveis e, se ainda faltava muito para que a luta pelos direitos civis ganhasse força e se tornasse uma realidade, pode-se dizer que os primeiros passos foram dados ai.

Graças à onda do swing e o sucesso das Big Bands nas primeiras décadas do século, brancos e negros se divertiam juntos em casas históricas como o Savoy. Dave queria fazer parte dessa história, mas no caminho surgira o conflito que definiria a política do século e a ameaça fascista parecia motivo o suficiente para adiar qualquer sonho.

É ai que reencontramos o soldado Brubeck do início do texto. Parte da minoria branca que não aceitava o segregacionismo racial dominante em seu país, Dave ficou chocado ao saber que, mesmo em tempos de guerra, tal pensamento vingava dentro do exército. Até o sangue para transfusão era separado entre, sangue branco, para soldados brancos; e negro, para soldados negros.

Logo após aportar na Europa, já acampado com seu regimento num posto aliado, aguardava às ordens para sua primeira missão. Foi durante a visita de um grupo de artistas, num dos eventos promovidos para distrair as tropas, que perguntaram entre os soldados se havia alguém capaz de tirar algumas notas no piano. A trupe tinha o instrumento, mas não o instrumentista. Já sentindo falta das teclas, Brubeck não perdeu a oportunidade e se ofereceu.

Sua performance agradou tanto que recebeu ordens de seus superiores para formar uma banda do exército. Acatou as ordens, porém fez questão de incluir negros entre seus músicos. Brigou principalmente por dois nomes, Gil White, mestre de cerimônias, e Richard Flowers, trombone. Em suas palavras, “se havia segregacionismo no exército, na Dave Brubeck Wolf Pack Band (nome que dera ao projeto) não haveria!”

A história está bem documentada na série “A história do jazz” de Ken Burns. Brubeck conta que, ao final da guerra, logo após desembarcar com seus músicos num porto Norte-Americano, decidiram todos almoçar e beber para comemorar. O dono do estabelecimento recusou-se a servi-los, alegando que, se eles insistissem em comer ali, os negros do grupo teriam que se alimentar na cozinha. Brubeck recusou e, ao saírem, ouviu de Richard Flowers: “Acabo de voltar de uma guerra que não era minha, disposto a dar meu sangue pelo meu país. Vi coisas que vão ficar comigo para sempre, como uma marca em minha alma. E, agora, nem posso me sentar para beber na mesma mesa que vocês, meus amigos. Qual o motivo daquilo tudo porque passamos?”

No mesmo episódio, o pianista conta que aprendeu a respeitar as diferenças com seu pai. Lembra-se do primeiro homem negro que viu. Segundo Brubeck, ainda era criança quando, certo dia, seu pai o chamou. “Quero que conheça meu amigo, filho.” Ao chegarem na casa desse amigo, que era negro, seu pai pediu: “Tire a camisa e mostre as suas costas para ele.” Havia marcas de açoites cicatrizadas deformando todo o corpo do homem. De forma severa, seu pai lhe disse: “Trouxe você aqui para que entenda, filho. Agora você tem idade para compreender e é bom guardar bem essa imagem. Esse tipo de coisa não pode acontecer nunca mais!”

Bons pais fazem grandes homens!