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sábado, 7 de abril de 2018

Hey That´s no Way to Say Goodbye





Hey That´s no Way to Say Goodbye
Por César Alves

 “Bird on a wire”, filme de Tony Palmer, registra a turnê de mesmo nome realizada por Leonard Cohen em 1972. Como é de conhecimento geral, Cohen já vinha de uma carreira internacional bem sucedida, como poeta e escritor.
Embora tenha participado de uma banda country ainda na adolescência, sua incursão na música aconteceu quase que por acidente, após Judy Collins gravar duas de suas composições. Sua participação no Newport Folk Festival de 1966, abriu os olhos do produtor John Hammond, que já tinha no currículo Aretha Franklin, Billie Holliday e Bob Dylan entre outros, e convidou o canadense para gravar um álbum. O resultado foi a obra – de lirismo e importância incontestáveis – “Songs of Leonard Cohen” de 1968. Com os discos, vêm também as apresentações ao vivo e turnês. É ai que a coisa se complica. Como muitos de seus pares, Cohen também sofre da timidez característica da maioria dos gênios. O artista nunca escondeu seu desconforto diante de uma grande audiência.
É notório que Cohen sofre de depressão desde os nove anos. Idade que tinha na época do falecimento de seu pai. E isto, em parte, explica os grandes períodos de reclusão por que sua trajetória vez ou outra passou. É justamente esta faceta do artista que fica clara em um dos momentos mais tensos e também belos da turnê de 72. Cohen tenta em vão introduzir os primeiros acordes de uma de suas mais lindas canções “Bird on a wire”, mas é sempre interrompido pelos aplausos e gritos de reverência da platéia. Ele chega a pedir que as pessoas não aplaudam, mas levantem as mãos para demonstrar que reconhecem e gostam da música, mas é em vão.
Extremamente constrangido e irritado, ele se levanta e abandona o palco quase lembrando momentos de nosso João Gilberto. Nos bastidores, os organizadores e parte de seu entourage tenta convencê-lo a voltar e obtêm do artista respostas como: “...eu não posso”, “...não consigo mais fazer isto”. Fica claro que não se trata de “frescura” de artista, mas sim do estranhamento natural de quem não se sente parte daquilo. A platéia, então, começa a entoar o cântico “hevenu shalom alechem”.
É ai que a poesia se manifesta como que arquitetada pelo acaso. Está no sorriso constrangido e na timidez quase infantil de Cohen – na época um garoto de quase quarenta anos –, está naqueles quatro ou cinco integrantes da platéia que se esquecem do motivo da confusão e arriscam aplausos também tímidos e também no silêncio do público quando o artista volta ao palco para tocar “Hey, that´s no way to say goodbye”, quase como um pedido de desculpas. Mas está, principalmente, no olhar da garota que olha hipnotizada para o palco. Estaria ela pensando num jeito de dizer adeus a alguém? Acho que não existe uma maneira correta para se dizer adeus. Principalmente, quando ainda não queremos partir...


(César Alves, 24 de Maio de 2010)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

São Paulo na ótica do Flaneur – O Coração da Pauliceia Ainda Bate



São Paulo na ótica do Flaneur

Reunindo artigos inéditos e outros publicados em jornais, O Coração da Paulicéia ainda bate revela o olhar apaixonado de José de Souza Martins sobre a história, personagens, gentes e ruas da cidade de São Paulo.
Por César Alves

Ocupante da cadeira de número 22 na Academia Paulista de Letras, doutor em Sociologia pela USP e professor aposentado da mesma universidade, o escritor José de Souza Martins é também um mestre na arte do flâneur.
Palavra de origem francesa, derivada de flâner que pode ser traduzida para o português como “passear”, embora o verbo passear seja incapaz de resumir todas as particularidades e características do termo francês, objeto de estudo de Walter Benjamin e, antes dele, Charles Baudelaire. Correndo o risco de ser simplista demais em minha tentativa de explicação, o passeio do flâneur vai muito além do vagar pela cidade, aproximando-se do ato de se deixar perder por suas ruas com o olhar atento, entre o deslumbre, o encantamento e o desejo de decifrar seus mistérios. É este o olhar que se percebe durante a leitura de O coração da paulicéia ainda bate, obra que reúne crônicas inéditas e outras publicadas ao longo de nove anos na coluna assinada pelo autor no caderno Metrópole do jornal O Estado de São Paulo.
Atento aos detalhes e nuances da maior cidade da América do Sul, o professor José de Souza Martins traduz na sua prosa de excelente cronista, instantâneos captados pela ótica do poeta que busca inspiração na arquitetura, nas ruas, nas personagens, nas questões sociológicas e, principalmente, na história. “Na praça em frente, o largo da Liberdade, existia o pelourinho, símbolo da autonomia municipal e da justiça, destinado ao suplício de escravos condenados ao castigo público. Por isso o bairro foi conhecido como o bairro do quebra-bunda, referência aos cativos que dali saiam descadeirados(...). Dizia-se que São Paulo era uma cidade esquisita. A rua Direita era torta, o cemitério ficava na Consolação e a forca na Liberdade”.
Leitor das ruas e fotógrafo do espírito urbano e sociológico, o autor deixa-se perder pelas ruas da metrópole em busca de seus infinitos mistérios, estampados nos contornos de casarões e prédios antigos e arranha-céus modernos; na arte que se espalha feito museu a céu aberto, muitas vezes, sem ser notada pelos que por ali apressadamente passam; nos olhos dos atores que juntos protagonizam o drama da São Paulo de nossos dias e também nos fantasmas daqueles que o protagonizaram no passado e, de alguma forma, por ali ainda vagam. Assim como o é a alma de sua musa, os textos de Martins passeiam por histórias que se confundem entre o cômico e do trágico, passando pelo primeiro carnaval, o de 1856; a triste história de Dona Yayá, rica órfã, declarada louca em 1919, aprisionada na própria casa por mais de 40 anos “até receber o habeas corpus tardio da morte”; e o assassinato, em 1906, de uma filha pelo pai, ex-governador, que se suicidou em seguida, para impedir-lhe o casamento incestuoso com o poeta Batista Cepelos também seu filho com uma ex-escrava, fato que beira a mais trágica das tragédias gregas.
Com prefácio do poeta Paulo Bonfim, a quem a obra é dedica, e ilustrado com mapas, propagandas e fotografias, O coração da Pauliceia ainda bate chega como uma das mais belas e interessantes obras dedicadas à cidade de São Paulo produzida nos últimos anos. Altamente recomendável.

Serviço:
O Coração da Pauliceia Ainda Bate
Autor: José de Souza Martins
Editora: Unesp e Imprensa Oficial

427 páginas

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Sofrimento de Policarpo Quaresma, o Carnaval do Jovem Werther e o Tremendão de Roterdã



O Sofrimento de Policarpo Quaresma, o Carnaval do Jovem Werther e o Tremendão de Roterdã
por César Alves

Depois do 7 a 1, na derrota vergonhosa sofrida pela seleção brasileira frente a poderosa Alemanha, futebol talvez não seja assunto dos mais agradáveis aos Policarpos Quaresmas ainda pesarosos com o Triste Fim do Sonho do Hexa.
Sei que os que ainda ruminam Sofrimentos, enquanto celebra o Jovem Werther, não querem nem saber, mas sugiro a eles que se alegrem! Afinal, espantamos o fantasma de 1950, criando um Fred (piada pronta!) Krueger de 2014. O espírito do saudoso goleiro Barbosa pode descansar tranqüilo e justiçado.
Acho que é a hora de enxergar que a verdadeira Seleção não fosse aquela de amarelo, mas outra. Aquela que entrou em campo um ano antes, trajada de preto, usando touca ninja, uma Pátria de Coturnos e esquema tático agressivo, na base do ataque, fintando a tropa de choque com dribles de coquetel molotov, cujo hino dizia: “Não Vai Ter Copa!”
Entendo que é feio virar a casaca, mas, assim como o Zagalo numa Copa passada, você vai ter que engolir: Era melhor ter construído hospitais, creches e escolas. Por mais que tenhamos aproveitado da festa, ficamos com a limpeza e as despesas, que, tendo em vista o valor da entrada, melhor nem pensar no valor das prestações, quando recebermos a fatura.
Pagamos a conta e levamos 7 de troco. Uma gorjeta pelo bom serviço, cortesia dos simpáticos alemães.
Como dizia o Tremendão de Roterdã: “A maior das insanidades é querer ser sensato num mundo de insanos”, podem dizer que eu estou falando besteira, sendo negativista e exagerando. Talvez seja.
Mas, como ele (conterrâneo da equipe que pode nos contar a última piada ingrata da Copa no sábado, aliás) dizia também: “Rir de tudo é próprio do parvos, mas rir de nada é próprio dos Estúpidos”. Então, seguirei rindo e sugiro aos amigos o mesmo.

Sigamos a Vida Felina! Mais vale um Gato, que tem 7 vidas, que 200 milhões de Vira-latas, chorando eternamente 7 Gols.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Paulo Mendes Campos A Vida Não Vale Um Cronista


 
 
Paulo Mendes Campos e a vida quando não vale um cronista
por César Alves

Em 1962, sob o acompanhamento de um médico, Paulo Mendes Campos experimentou ser invadido pelo “jorro caótico” advindo das comportas abertas pelo LSD. A experiência teria feito o cronista sentir “o peso e a nitidez das palavras”, produzindo um “milagre da voz”. Relatado em artigos da época publicados na revista Manchete – depois reproduzidos nos livros O Colunista do Morro e Trinca de Copas –, o experimento foi para ele como encarnar São Francisco de Assis falando com o Lobo, “na falta de uma comparação que preste”. E concluía: “O lobo também sabe que amor com amor se paga”.

Não se engane o leitor desavisado, pensando tratar-se de um expoente da contracultura brasileira. Paulo Mendes Campos é um dos principais nomes de nossa crônica. Para muitos, tão importante quanto Rubem Braga. Viveu e, em sua escrita, fez viver seu tempo como poucos. Incluindo-se ai as promessas de descoberta interior e autoconhecimento dos paraísos artificiais. Embora apenas uma pequena passagem dentro de uma biografia admirável, o episódio lisérgico, no entanto, talvez sirva para definir a obra atual, multifacetada e não menos admirável, dela advinda. Correndo o risco pretensioso de profanar as palavras do próprio autor, sua crônica é como um jorro caótico em intensidade, diversidade de temas, lirismo e criatividade; nitidez da palavra que se faz texto simples, sem ser banal, e culto – quase erudito –, sem ser boçal; é o milagre da voz da inteligência, sagacidade, humor e sensibilidade. Como o lobo, Paulo Mendes Campos não só sabia que amor com amor se paga, como também sabia de mais algumas (muitas) outras coisas.

Estivesse vivo para ler este artigo, talvez Paulo Mendes desse um gole de seu uísque e, com um sorriso maldoso, dissesse que, assim como a tentativa dele descrever a viagem psicodélica, tal comparação também “não preste”. Cabe-nos, então, recolhermo-nos em nossa insignificância e concluir que ao leitor bom mesmo é ir provar direto de seu barato. Sendo assim, mais que uma grata surpresa é saber que sua obra aos poucos volta às nossas livrarias em novas edições publicadas pela Companhia das Letras.

Já estão disponíveis os dois primeiros títulos, O Amor Acaba e O Mais Estranho dos Países, que revelam uma crônica rica na diversidade de temas e ainda extremamente atual, apesar de algumas delas terem sido escritas há mais de meio século. Outra característica marcante é o lirismo poético e filosófico de sua escrita, que, mais que um passeio pelo cotidiano, é um passeio pela alma humana. “As crônicas são servidas por uma erudição fluida que confere a elas a transcendência que é própria dos bons ensaios. Não é só um bom e bem humorado comentarista do cotidiano. Ele enfrenta dúvidas existenciais e filosóficas com doses certas de ceticismo. Sua prosa é decantada em invenção poética e é isso que dá a seu estilo uma marcante peculiaridade”, diz o jornalista Flávio Pinheiro, organizador do projeto.

Segundo Pinheiro, a série pretende resgatar não só sua escrita em prosa, como a poética, faceta pouco conhecida do autor. “Paulo tem claros compromissos com a poesia. Escreveu poesia de primeira qualidade. Leu todos os grandes poetas. Foi esplêndido tradutor de poesia. Eu diria que a poesia o tempo todo fecunda sua prosa. E há mesmo certas crônicas que são pura prosa poética, no melhor sentido do termo, como "O amor acaba". Mas se a prosa está muito contaminada pela poesia, sua poesia tem uma dicção particular”.

Também diretor geral do Instituto Moreira Salles, o jornalista está diretamente ligado ao projeto de catalogação do acervo de Paulo Mendes Campos que o instituto detém desde 2011. “O trabalho de catalogação ainda está em fase inicial. Um item do acervo que nos chama atenção são os diversos cadernos escritos a mão por Paulo Mendes Campos com anotações variadas que prefiguram temas de crônicas e outras observações”. Ano passado, o IMS publicou a bela Carta a Otto – Um Coração de Agosto, missiva escrita por Mendes Campos ao amigo Otto Lara Resende o que abre expectativas sobre futuros lançamentos envolvendo s registros pessoais do cronista, embora ainda não haja projetos em andamento neste sentido.

Um dos lendários “vintanistas” de Mario de Andrade ou os “quatro cavaleiros de um íntimo Apocalipse”, como definiu Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte no ano de 1922. O grupo de jovens autores mineiros que, além dele e Lara Resende, também contava com Fernando Sabino e Helio Pellegrino, migrou para o Rio de Janeiro, onde ajudaria a renovar as letras e o jornalismo brasileiro na segunda metade do século vinte. Entre nossos cronistas, é comum dizerem que Paulo Mendes Campos foi injustiçado em sua época. “Não há dúvida que a obra de Paulo Mendes Campos mereceria ser mais conhecida porque se trata de um escritor ótimo e singular. Este clamoroso esquecimento está sendo sanado pelas reedições da obra. Mas soa estranho que ele tenha uma fortuna crítica tão escassa, mesmo quando comparada a de outros cronistas”, observa Flávio Pinheiro.

Devolver a um dos maiores nomes de nossa crônica seu lugar de direito e oferecer às novas gerações a oportunidade de ter contato com a obra de Paulo Mendes Campos, desde já, faz do projeto uma das melhores novidades literárias do ano.

Serviço: O Amor Acaba (288 páginas) e O Mais Estranho dos Países (352 páginas), de Paulo Mendes Campos. Editora: Cia. Das Letras.